De Curitiba à Sinop, uma homenagem a um eterno aventureiro

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A maioria de nós motociclistas, teve sua paixão iniciada na infância, tendo como referência nosso pai que nos levava para um passeio, contava história de suas viagens e de certa forma nos fazia imaginar como seria encarar as estradas em cima de uma motocicleta.

Não poderia ser diferente com Klaus Martin Fuchs, amigo do Flinkas, e que em 2008 perdeu o pai em um acidente de carro por ironia do destino, pois, em todos os seus anos de motocilista, vivendo aventuras como a que iremos relatar abaixo, nunca havia sofrido um acidente grave.

Foi no tanque da CG 1976 igual a essa que eu me apaixonei

O Klaus, encontrou um um diário de umas das viagens que o pai fez de moto e gostaria de compartilha-lo aqui com vocês. É bem longo, mas é um prato cheio para quem curte viagem de moto e explica o vício atual de Klaus na junção de estrada e motos! Como bom motociclista o pai dele, antes de terminar a viagem de quase 4mil kms já estava planejando a próxima!

Viagem de Curitiba-PR a Sinop-MT

iniciando a aventura

De 10 a 25 de novembro  de 2001.

Procurei um parceiro de viagem, mas ninguém se apresentou. Preparei tudo para viajar sozinho. Assim parti na minha Suzuki Intruder 250 no dia 10.11. – sábado, as 15;30 h. — para Maringá. Cheguei as 23;00 h na casa de meu irmão. No dia seguinte, 11.11, domingo, saí as 12;00 h. Abasteci e já tive de vestir a capa de chuva. Parei num pedágio esperando o vento e a chuva diminuir. Cheguei a Porto São José as 17;30 h. Abasteci e esperei a balsa. O rebocador que a trazia deu pane e a balsa ficou à deriva. Mandaram outro rebocador atrás e uma hora depois a balsa finalmente encostou. Atravessamos.

parada forçada por causa do excesso de barro

Eu não sabia o que me esperava do outro lado. O mapa dizia que tinha 55 km de chão pela frente, mas foram 70 km. A chuva tinha amolecido uns 10 cm da estrada e tudo virou um grude só. Rapidinho aprendi a andar no barro. Só em 1ª e 2ª marchas. Não se pode usar o freio dianteiro. Os pés quase o tempo todo pendurados, prontos para dar apoio para não cair. Se a roda dianteira encostar num dos morrinhos deixados pelas rodas dos caminhões ou carros, automaticamente quer subir. Como não consegue, escorrega. Se frear é pior. Logo tive minha primeira parada forçada.

Descobri que a roda dianteira embuchou, entupiu de barro. Quase cai. Achei um graveto e limpei o pára-lama. Levei o graveto junto para outra eventualidade, que logo apareceu. Já de noite, a corrente começou a estralar de vez em quando. Não pude ver, mas achei que pelo desgaste ficou folgada demais e tentava acavalar em algum dente do pinhão ou da

entrada da fazenda Santa Lúcia

coroa. Caí lá pelas 22;00 h. Entortou a pedaleira auxiliar esquerda. Consegui me levantar e levantar a moto. Batalhei até à meia-noite, quando resolvi parar, pois minhas pernas já não queriam mais. Doíam na parte de cima da coxa, próximo da virilha. Estava na entrada da Fazenda Stª Lúcia, um pouco mais alta que o leito da estrada e com gramado. Estiquei uma ponta da lona sobre a moto e dobrei a outra de forma que pudesse me deitar em cima, mas coberto por ela.

Fui acordado por um cavalo curioso, que trotava atrás da cerca da fazenda. Quando levantei e falei com ele, ele se deu por satisfeito e foi embora. Desentupi a roda dianteira novamente e descobri que o pára-lama plástico traseiro estava caído sobre a roda. A chuva tinha dado uma pequena trégua. Tirei o assento. Procurei alguma coisa para amará-lo e achei uma tira de couro atrás do portão da fazenda, no tamanho exato. Mais 12 km de grude e areão mole, passando por uma carvoaria, achei asfalto pela frente. Que alivio. Era Bataíporã. Tomei um café reforçado, feito no capricho do jeito que pedi, as 9;30 da manhã, na “Lanchonete 2001”. Desde as 15;00 h do dia anterior, em Paranavaí, não havia comido e nem bebido nada.

Logo cheguei a Nova Andradina. Abasteci e lavei a moto. Foi a pior média: 18.912 km/l. Enquanto abastecia escutei um estrondo. Num prédio ao lado do posto uma marquise despencou. Pelo que deu pra notar, nenhum ferido. Assunto para uma semana de conversa na cidade. Já chovia de novo.

Nos próximos 60 km, até a BR 267, a chuva ficou torrencial. Almocei no “Posto Gauchão”. Ainda chovia. No km 414, depois de Nova Alvorada do Sul, já na BR 163, as 15;30 h. pude tirar a capa de chuva; mais de 27 horas depois. Pouco depois a corrente estralou de novo. Resolvi olhar mais de perto. Estava realmente bastante folgada. Fiz uma regulagem e a lubrifiquei. Daí pra frente não deu mais problemas. Parei perto de Campo Grande, capital do Mato Grosso de Sul. Não lembro o nome do posto.

Encontrei um viajante que dizia ser sócio do Clube de Aventureiros Radicais. Viajava de bicicleta. Já tinha percorrido 120km naquele dia. Sempre dormia em postos de gasolina, esticando uma rede em qualquer lugar, para não pagar hotel. Sempre consegue patrocínio de alguma secretaria de turismo municipal, ou de algum prefeito. Contou que conhece mais de 4000 cidades, em toda a América do Sul, e que tem uma coleção de mais de 3000 bonés ganhos nas suas andanças.

Fui adiante. Abasteci no “Posto Raffa”, em Bandeirantes, bem depois de Campo Grande. Decidi ficar no hotel do posto, pois logo a frente se via um paredão de nuvens cor de chumbo com um babado de nuvens brancas. R$ 14.00 o quarto com ventilador e banheiro. Como foi bom aquele banho, depois de 48 horas. Parei na hora certa, pois logo após ter descarregado a moto, tornou a chover. Na manhã seguinte ainda chovia. Alguém falou que em Coxim não estava chovendo. Quando saí as 10;20 h. tinha parado de chover, mas logo recomeçou. Passei Rio Verde do Mato Grosso debaixo de chuva. Coxim já não chovia. Parei para fotografar. O rio Taquari, que corta a cidade, estava cheio. No meio da tarde cruzei a fronteira com Mato Grosso. Parei para fotografar. O rio Correntes não me pareceu tão cheio. A contagem kilométrica começou do zero. No km 60 o odômetro da moto virou para 32.000.

encontro com amigo Jandir que estava numa CB 450

Fui alcançado por outro aventureiro de duas rodas – Jandir Gris – de Palotina, PR, numa Honda CB 450. Em Rondonópolis paramos para conversar num posto. Ele decidiu ficar por lá mesmo, na casa de algum conhecido. Telefone dele: 044-9976.1346. Andei mais um pouco, até Juscimeira. Pousei no hotel “J.K” por R$ 12.00. Depois de registrado, tornou a chover. Até faltou luz. Ficamos com velas espalhadas na recepção e no quarto por umas duas horas. Tomei banho depois que a luz voltou. Saí no dia seguinte as 9;30 h.

Em Cuiabá peguei a Rodovia dos Bandeirantes e abasteci. Pouco depois fui alcançado pelo Jandir. Caímos numa “Blitz”, da polícia militar, em Várzea Grande. Pela primeira vez na vida tive que molhar a mão do guarda para ele me liberar a moto. Morri com R$ 80.00. Almoçamos em Jangada. Jandir me contou que também ia até Sinop, mas antes queria passar nas cidades de Nobres e Diamantino, onde tem amigos. Em Sinop tem um conhecido, Celinho, que trabalha na Concessionária Suzuki de lá. Abasteci no Posto Gil, já no alto da Chapada dos Guimarães. (Eta serrinha micha para subir. Aqui no Paraná tem serras muito mais lindas). Parei mais adiante, no posto “São João”. Estava sentindo sono. Ali, ao lado da estrada, tem alguns km’s de touceiras de bambu, limitando uma só fazenda. A moça da lanchonete me informou que faltavam 300 km até Sinop. Fui em frente. Uns 30 ou 40 km depois fui quase inesperadamente alcançado por um amigo de Curitiba, Marcão, que também ia para Sinop. Sabíamos um do outro que tínhamos o mesmo destino na mesma data. Paramos para nos cumprimentar e tirar fotos para comprovar o encontro. Na saída de Nova Mutum outra “Blitz”, mas sem problemas.

Recomeçou a chover perto de Sorriso – Capital Mundial da Soja – e já estava anoitecendo. Abasteci tanque e estômago na entrada de Sorriso. E perguntei por um hotel. A moça da churrascaria foi muito gentil e curiosa. Adorou a idéia da viagem-aventura. Depois me falou do “Hotel Catarinense”. R$ 12.00. Tomei banho e assisti o 2º tempo do jogo Brasil X Venezuela. Acabou ganhando por 3×0. Viva, estamos na Copa do Mundo.

Dia 15.11., feriado, acordei com os pernilongos me ferrando, apesar do ventilador ligado. Saí de Sorriso as 9;00 h. e cheguei em Sinop as 10;10 h, no posto “Sinopão”, e mais 10 minutos estava na casa na minha irmã Erica e cunhado Herbert. Total da ida: 5 dias de estrada e 2.185 km depois.

Como era feriado me mostraram um pouco da cidade. Muitas construções, principalmente moradias, a maioria de alvenaria.

Os próprios operários as constroem para si. É uma cidade plana e em franca expansão. Tem cerca de 80.000 habitantes e aumenta a cada dia.

 

revisão da máquina na Pan Motos

Sexta-feira, dia 16.11, passei na Pan Motos, Concessionária Suzuki em Sinop. Resolvi fazer uma revisão, depois de passar pelo atoleiro no Mato Grosso do Sul e andar a maior parte do trajeto debaixo de chuva. Lavaram a moto, endireitaram a pedaleira, entortada no pequeno tombo no atoleiro, e prenderam novamente o pára-lama. Também troquei as pastilhas de freio. Não tinha óleo sintético na cidade, só semi. Para 2000 km, me disseram. Rodei um pouco pela cidade.

 

pan motos...preparando o retorno

Observei que muitas mulheres pilotam motos, mais do que por aqui. Na Pan Motos me confirmaram isto. Contaram-me também que a moto Suzuki Intruder 250 é a moto mais vendida da Concessionária. É a campeã de vendas deste modelo de moto no Brasil. Não vi muitas motos grandes. Observei também muita moto titãn puxando carretinha, ou reboque, o que não se vê por aqui. Observei que a coroa da transmissão é maior, provavelmente da XLinha.

 

Dia 20.11, depois de tirar algumas fotos, me despedi dos parentes. Passei na Pan Motos para um adeus final, onde também tirei fotos. Peguei a estrada. Abasteci e almocei em Lucas do Rio Verde. Era a gasolina mais cara: R$ 2.19/l e o almoço: R$ 8.00. Pouco depois, chuva outra vez. 15 km antes de Nova Mutum parei numa lanchonete e tirei a capa novamente. Estava quase dormindo em cima da moto. Tomei um cafezinho e comi um pedaço de melancia gelada. Conversei com o Sr. que me atendeu sobre as plantações e tirei foto. Jantei em Jangada, no “Duas Irmãs”, onde tinha almoçado com o Jandir na ida. Dormi no hotel “J.L”. R$ 10.00.

Dia 21.11 encarei a estrada as 8;10, evitei a Blitz em Várzea Grande e endireitei para Cuiabá. Abasteci em Coxipó, bairro de Cuiabá. Vi que era uma cidade bem grande, com muitos prédios altos, mas não achei lugar bom para fotografar. Subi a Serra de São Vicente com chuva de verão. Sol e chuva ao mesmo tempo. Quase levei um tombo nas curvas da serra, quando passei nas faixas brancas pintadas de preto. As 18;30 h. passei a divisa dos estados. Parei novamente para fotografar. Dormi no hotel “Taquari”, em Coxim.

O dia seguinte, 22.11, amanheceu com chuva. Quando saí as 9;30 h. o asfalto já estava seco e o céu limpando. Ficou um dia lindo. Ontem fez um calor infernal. Hoje está bem agradável. Abasteci e almocei no Posto Raffa, em Bandeirantes. Em Campo Grande o odômetro virou para 34000 e me descuidei da saída. Voltei. No Macro me agasalhei, achando que ia pegar chuva. 15 km depois tirei a capa novamente. A chuva pegou outro rumo. Quase parei em Nova Alvorada do Sul, mas fui adiante. Parei no “Posto Gauchão”, onde tinha almoçado na ida. Perguntei sobre hotel. Rodei mais 62 km e cheguei em Nova Casa Verde, no km 125 da BR 267, já quase escuridão completa. Encontrei o “Hotel Santarém”, bem barato: R$ 10.00, com banheiro. Em Coxim havia pago R$ 12.00. Jantei numa lanchonete ao lado do hotel. As 22;30 começou a chover e esfriou. Foi a 1ª vez que usei um cobertor.

No dia seguinte, 23.11, sexta-feira, saí as 8;20 h. Abasteci em Bataguaçú, a 30 km da fronteira com São Paulo. É enorme o aterro e a ponte sobre o rio Paraná, quase 13 km, resultado da barragem de Porto Primavera. Tirei algumas fotos. Continuei. Pouco antes de Pres. Prudente desviei para Pirapozinho, direção do Paraná. Almocei no “Posto Comboio”. R$ 10.00, o mais caro da viagem toda. Parei no lado paranaense, em Santo Inácio, depois de atravessar o rio Paranapanema, onde abasteci. Veio o pior trecho de asfalto, próximo de Nova Esperança. A recapagem do asfalto se soltou. Foi onde a suspensão mais vezes bateu no final. Andei no acostamento. Carros e caminhões também. Parei no km 140 da BR 376. O zíper da jaqueta emperrou. Suei um bocado para poder tira-la. Cheguei a Maringá as 18;10 h, na casa do meu irmão. Passei o sábado com a família dele e encarei a última etapa no domingo, dia 25.11.

muito boa a aventura

Saí as 9;45. Abasteci. Obtive a melhor média da viagem neste trajeto até Maringá: 30.928 km/l, mas andei a maior parte do trajeto abaixo de 80km/h. Passei por outra Blitz. Recomendaram para trocar o capacete, pois está com a validade vencida. Mais adiante um motorista pediu para avisar no pedágio que estava com pneu cortado e que precisava de ajuda técnica. Quando cheguei no pedágio, o de Ortigueira, o pessoal já estava sabendo do acontecido e eu só confirmei o fato. Almocei no Posto Soledade II, depois de Imbaú. Peguei a última chuva da viagem entre o rio Tibagi e o alto da Serra de São Luiz. Em Campo Largo tornei a tirar a capa de chuva e cheguei ao fim da viagem as 17;45 h. já meio enjoado de tanto rodar. Dos 16 dias passei 10 na estrada.

Durante a viagem vi apenas dois acidentes, só com caminhões. Ambos em trechos retos da estrada. O primeiro foi perto de Rondonópolis, onde o motorista simplesmente saiu da pista, foi para o acostamento e deste para a valeta, ainda cheia de água da chuva. Acho que ele cochilou no volante. O outro foi já no estado de São Paulo, onde uma carreta simplesmente saiu da pista em que vinha, deu uma guinada de quase 90 graus para a esquerda, atravessou a pista oposta e parou com a frente no barranco, deixando um rasto preto de pneus travados. Em ambos os casos não vi outro veículo envolvido.
No Paraná os cafezinhos são cobrados. Nos outros estados não.
No final deste relatório já estou pensando numa próxima viagem, além de algumas esticadas aqui por perto. Talvez Bagé, no Rio Grande do Sul. Tenho uma tia – que já me convidou – e alguns primos morando por lá. Bahia é outro opção.

Dados resumidos da viagem:

Ida: 2185.0 km – via Porto São José
Volta: 2333.7 km – via Pres. Prudente
Total: 4518.7 km
Total de combustível: 164.796 litros = R$ 315.19
Média Geral: 27,41996 km/litro
Pior média: 18.912 km/l – Porto São José – Nova Andradina
Melhor média: 30.928 km/l – Santo Inácio – Maringá
Total hotel: R$ 70.00
Pedágio, só tem no PR: R$ 24,60
Almoço e janta variaram entre R$ 4.50 e R$ 7.00 por refeição.
Total estimado: R$ 120.00
Total geral das despesas de viagem: R$ 530.00

Curitiba, 27.11.2001

Erich Fuchs

Este post é uma singela homenagem a lembrança de Erich Fuchs, pai e motociclista, que além de boas lembranças deixou a seu filho, Klaus Martin Fuchs, um exemplo de que na vida não devemos desistir de nossos sonhos, que somos capazes de vencer as dificuldades e viver belas aventuras em busca de uma liberdade que muitos acham loucura. Fique com Deus Klaus“.

Um abraço dos Monges MC.

Contato do Klaus: kmafu@gmx.net

 

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One Response to De Curitiba à Sinop, uma homenagem a um eterno aventureiro

  1. Berlindo diz:

    Sou amigo do Fuchs e do Flinkas e posso dizer que fiquei bastante emocionado e admirado pela determinação e bom humor que o pai do Fuchs concretizou em uma viagem inesquecível como essa.

    É notável que as pistas eram altamente precárias, estruturas muito aquém das que podemos encontrar hoje nesse mesmo trajeto, isso sem falar na moto, que era indiscutívelmente inapropriada para tal trajeto, porém de forma alguma limitou os planos do Fuchs pai.

    Isso serve para nos lembrar que não existem limites para fazer algo de que se irá recordar por toda a vida. Muita gente tem condições muito superiores (uma boa moto, dinheiro suficiente, tempo livre, parceria) e não faz nem 1/10 da viagem acima, bem como não leva pra casa um motivo de orgulho como esses. Parece clichê, mas isso realmente não tem preço.

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